Tako X sobre cinema

Comentários de Edson Tako X sobre cinema e seus vídeos do Gralha



Terça-feira, Julho 18, 2006

PALAVRAS DO DIRETOR

O cartunista curitibano Edson Tako X, brasileiro descendente de japoneses, comenta como foi a sua transição da nona arte (os quadrinhos) para a sétima arte.

Diferenças entre fazer quadrinhos e fazer cinema
O trabalho de um quadrinista é solitário, é praticamente só você, suas idéias, seus materiais e o papel à sua frente; cinema é um trabalho coletivo, e o produto final vai ser sempre a soma de cada pessoa envolvida no projeto.
Depois desta experiência eu posso afirmar que a autoria de um filme nunca pode ser creditada a uma só pessoa, como acontece na literatura ou mesmo nos quadrinhos. E eu acredito que isto é o que dá ao cinema este charme - é preciso trabalhar em equipe, ouvir todo mundo, filtrar as idéias, aceitar sugestões e se adaptar ao que você tem em mãos, para contar uma história - este equipamento, esta equipe, estes atores, estas locações, esta luz, este orçamento. E quanto maior o dinheiro envolvido, mais controle você poderá ter sobre a imagem final. Nos quadrinhos, basta ter talento gráfico, alguma idéia interessante na cabeça e um bom tanto de empenho e obstinação.

Processo de trabalho
Minhas maiores influências em termos de cinema: Spielberg, Tarantino e M. Night Shamalayan. Nos quadrinhos: Frank Miller e Bill Waterson.
Para poder imaginar as cenas do filme, comecei fazendo o roteiro simultaneamente com os esboços do storyboard (que já é uma espécie de HQ). Minha experiência de desenhista de quadrinhos pode ter facilitado a visualização das imagens do filme na hora de criar o roteiro, mas na hora da gravação, algumas coisas que imaginei (e que funcionavam no storyboard) não funcionaram muito bem no monitor, então tive que ir alterando o próprio roteiro à medida que filmávamos. Então eu ouvia as sugestões da equipe para resolver determinada cena e depois tinha que decidir rápido, pois o tempo de filmagem era curto - só podiamos filmar até as 18 horas, enquanto havia sol. Então, nessas horas eu me tornava um editor de idéias.
Existem muitas maneiras de se mostrar uma idéia na tela, mas na hora de dirigir um filme você, muitas vezes, tem que decidir qual é a maneira mais adequada em um espaço de tempo muito curto, pois a equipe está toda ali, diante de você, esperando apenas uma decisão sua.
Neste filme a minha maior influência não veio do próprio cinema e sim dos quadrinhos: a de Frank Miller, principalmente pelo seu "Cavaleiro das Trevas" e "Batman - Ano Um", no tom intimista e no tratamento mais dark da imagem do herói.

Dos quadrinhos para a tela
Cinema é ilusão. É você mostrar apenas uma parte da realidade e fazer o espectador preencher o resto com a imaginação dele. Neste aspecto é muito parecido com os quadrinhos que também usam de fragmentos da realidade para contar uma história.
A transposição dos quadrinhos para a tela foi realmente muito difícil, porque nos quadrinhos praticamente tudo é possível, e você não precisa convencer o leitor de que aquilo é real. Não é, pois é apenas tinta no papel. Já no cinema você tem que ser mais convincente. O público só vai participar da ilusão se você conseguir "enganar" os olhos da audiência (a tal da suspensão temporária da realidade) e fazer o público participar da sua proposta. Então procuramos trabalhar em cima das nossas limitações e fazer um filme possível de ser feito dentro destas limitações tecnológicas e orçamentárias. Embora tenha sido interessante trabalhar com esta escassez de recursos, que nos fez procurar soluções baratas e usarmos a criatividade o tempo todo. Costumo dizer que este filme possui dois orçamentos (somente para pré-produção e filmagem): o verdadeiro (em torno de ciquenta mil reais) - se todas as pessoas envolvidas tivessem sido remuneradas, assim como os equipamentos particulares e locações tivessem sido pagos) e o real (de R$ 2.000,00) - que é aquele mínimo básico de materiais sem as quais não seria possível nem mesmo gravar o filme, como as fitas Beta, combustível, alimentação, figurino, maquiagem e alguns objetos de cena. E este último valor foi levantado graças ao apoio de algumas boas almas que ainda acreditam no valor do trabalho artístico e um outro tanto dos nossos próprios bolsos.

Diferenças entre quadrinhos e cinema
O cinema é uma experiência fascinante por envolver dois de nossos sentidos: a audição e a visão, enquanto os quadrinhos só podem utilizar um - a visão.
O problema que eu via na leitura dos quadrinhos, é que os desenhos, muitas vezes, pareciam atrapalhar o ritmo da narrativa. Você não pode obrigar alguém a ler com o ritmo certo e com o sentimento que você espera que ele sinta e nem que não se distraia com os desenhos (muitas vezes maravilhosos!). Já o cinema possibilita um controle maior sobre o ritmo da narrativa e com a ajuda da música e da fotografia, criar o clima correto. Sem falar no trabalho do ator, que usa seu talento para expressar os sentimentos e emocionar a audiência.

Cumplicidade
Os quadrinhos e o cinema necessitam da cumplicidade do leitor/espectador para contar uma história. Muitas vezes, você tem que sugerir que algo está acontecendo e mostrar apenas porções da ação para confirmar isso. Se numa HQ você mostra pessoas voando e explica que isso foi devido a uma super-máquina inventada por um cientista aliénigena, o leitor vai ter que aceitar esta realidade, esta premissa básica, senão ele nem vai querer continuar a ler, caso acredite que isso "é impossível!!!". No cinema também acontece isso: você tem que explicar tudo que vê na tela ao espectador, por mais que essa explicação seja exdrúxula. E com uma diferença básica: enquanto nos quadrinhos a ilusão é parcial (o que você vê são desenhos e não há som), exigindo do leitor um grau de cumplicidade maior, no cinema a ilusão é mais completa (principalmente no live-action), então você tem que ser mais convincente na criação da sua ilusão. O espectador quer ser surpreendido, enganado mesmo, voluntariamente, mas você não pode ofender sua inteligência porque ele quer acreditar no que está acontecendo na tela, nem que seja por alguns minutos (suspensão temporária da realidade - como citado por Syd Field).


Escolha dos atores
O Gralha foi ficando cada vez mais jovem e magro nos quadrinhos à medida que desenhávamos ele. Então foi uma escolha até óbvia escolhermos o cartunista Eduardo JR Moreira que também participou da gênese do Gralha, e tinha o biotipo adequado (apesar de não ser assim tão jovem, sempre aparentou menos idade). Afinal quem tem superpoderes não precisa necessariamente ter um corpo atlético ou ser um galã. Gostaria que as pessoas se identificassem com um cara comum que poderia ser o seu melhor amigo ou você mesmo. Já o Craniano exigia um ator mais experiente, já que o personagem é mais complexo (por isso, às vezes, o vilão é mais interessante que o mocinho).

Grupo Photon Filmes
Este filme só foi possível graças ao empenho deste grupo, que se conheceu num curso de cinema, em 2001, e resolveu abraçar este projeto com uma vontade e paixão que só poderiam vir de um grupo tão entusiasmado e apaixonado pelo cinema como este. Fica aqui registrado meu profundo agradecimento à toda a equipe que participou deste filme, todo o apoio e à confiança que depositaram em mim, por terem me deixado dirigir o filme, apesar da minha falta de experiência no ramo. E por terem me dado o privilégio de realizar este antigo sonho meu.


E no mais, alguns certamente irão pensar depois de ler este texto e antes de assistirem ao filme: é possível fazer um filme de super-herói com um orçamento tão baixo? (Um filme como o Homem-Aranha de Sam Raimi não sai por menos de 100 milhões de dólares!!!) Então, será que conseguimos essa proeza "heróica", sem cair no ridículo?


Tako X - Outubro/2002
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postado por: EDSON TAKEUTI 9:13 AM


Quinta-feira, Julho 06, 2006

Veja as fotos exclusivas do Gralha no Festival de Cinema de Curitiba 2005 no http://www.edzu.blogspot.com

postado por: EDSON TAKEUTI 7:04 AM


Quarta-feira, Julho 05, 2006



O Conceito por trás do filme "O Ovo ou a Galinha" do Gralha

Na verdade este filme está travestido de filme infanto-juvenil e despretencioso. Há uma pretensão artística maior e o público a ser atingido sempre foi o público adulto ou pelo menos adolescente (para felicidade nossa, a criançada também adorou!). A proposta era mostrar o que aconteceria se houvesse realmente um super-herói de verdade nas ruas de uma cidade brasileira e também de mostrar o que seria hoje, um filme de super-herói tipicamente brasileiro. Acredito que as duas propostas alcançaram seu objetivo. Este filme possibilitou ao brasileiro pelo menos sonhar com uma produção brasileira no gênero e talvez perceber, a grande distância que existe, tanto cultural como economicamente, entre Hollywood e Brasil. Quero frisar que este filme não é TRASH, no sentido de mal-feito, pois foi feito com muita seriedade, pois além dos estudantes de cinema participantes, na parte técnica haviam profissionais tarimbados e com muita experiência. E quanto ao roteiro, procurei usar todo o conhecimento adquirido no curso de cinema com a Tizuka Yamasaki e também nas leituras de livros como "Manual do Roteiro" de Sid Field, "O Poder do Clímax", de Luiz Carlos Maciel e conceitos de Christopher Vogler e Joseph Campbel, além de colocar um subtexto de conceitos budistas e taoístas.



A Produção - Assim que terminamos o curso de cinema com a Tizuka, eu apresentei ao grupo de alunos a proposta de realizar um curta live-action com o Gralha, com a condição que eu dirigisse. Bolei o roteiro e chamei meu amigo Eduardo Moreira pra encarnar o super-herói. Todos gostaram e partimos pra produção. A maioria eram jovens universitários com muita vontade e sem emprego, o que garantiu a dedicação total do grupo no mês de preparação do filme. Corremos atrás de patrocinadores e parceria com empresas de edição de vídeo que se mostraram dispostas a colaborar e serem parceiras do projeto. Rodamos em duas semanas e editamos em dois meses o curta-metragem. O filme é todo original, inclusive a trilha sonora e incidental, algumas foram feitas exclusivamente para o filme e outras foram cedidas por bandas locais pra uso no curta. O resultado ficou melhor do que eu esperava, houve um empenho realmente muito grande para que o resultado saísse profissional, por parte de toda equipe técnica, desenhistas, atores, músicos, profissionais de CG. Havia o câmeraman que já havia trabalhado com o Walter Avancini, e o editor já havia trabalhado na Globo local, e outras pessoas muito competentes em cada área, ou seja, não tinha como sair ruim. A recompensa desse esforço acabou sendo a premiação de Melhor Filme pelo juri popular do Festival de Cinema e Vídeo de Curitiba de 2003. Depois fizemos somente mais um curta com ainda menos recursos pessoais e de verba, dessa vez com uma câmera digital (o outro foi em beta) chamado "O Gralha e o Oil-man - um Encontro Explosivo" contando o inusitado encontro entre as duas lendas vivas de Curitiba.

O vídeo "O Ovo ou a Galinha" foi o primeiro filme de super-herói a ganhar um prêmio importante num festival de cinema e vídeo sério em todo o mundo.

postado por: EDSON TAKEUTI 10:27 PM



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